Liderança de engenharia

Decisão irreversível precisa de um processo diferente

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O maior erro de um líder de tecnologia não é decidir errado. É usar o mesmo processo para decidir tudo.

Quando todas as decisões passam pelo mesmo rito, duas coisas acontecem ao mesmo tempo. A decisão reversível fica lenta, por excesso de cerimônia. E a decisão irreversível passa rápido demais, porque ninguém percebeu que era irreversível.

A distinção é velha. O uso, não

A ideia não é nova. Jeff Bezos a popularizou com a imagem das portas: a de duas folhas, que se atravessa e se volta com custo baixo, e a de uma folha só, em que voltar é caro ou impossível.

Todo mundo concorda com a distinção. Quase ninguém faz o passo que ela exige: classificar a decisão antes de escolher o processo.

Na prática, o processo é escolhido pelo hábito da organização, pela agenda do comitê ou pela ansiedade de quem pediu. Raramente pelo custo de errar.

Em tecnologia, os exemplos são concretos

Reversíveis:

  • qual biblioteca usar numa feature nova;
  • a configuração de uma campanha;
  • um teste A/B;
  • a ordem do backlog da próxima sprint.

Irreversíveis, ou quase:

  • a escolha da plataforma de e-commerce;
  • o ERP;
  • o modelo de dados central;
  • a arquitetura de integração entre sistemas;
  • o contrato de longo prazo com um fornecedor crítico.

O primeiro grupo merece velocidade. Errar custa dias, e o aprendizado vale mais do que a análise. O segundo grupo merece outra coisa: tempo, dado, opções comparadas e gente que vai ter de conviver com a decisão sentada na mesa.

O custo aparece tarde

O problema não é tomar a decisão errada. Decisão errada faz parte do trabalho.

O problema é aplicar o processo errado e só perceber o custo quando desfazer virou a opção mais cara da mesa. Uma plataforma escolhida no ritmo de uma decisão de campanha cobra a conta dois anos depois, na forma de migração.

E o inverso também custa. Uma organização que trata tudo como irreversível paralisa. Cada escolha pequena vira comitê, e o time aprende que é mais seguro não propor nada.

O critério que uso

Antes de iniciar qualquer decisão relevante, faço uma pergunta:

Se errarmos, quanto custa corrigir? Semanas? Meses? Orçamento já comprometido? Confiança de um stakeholder-chave?

Se a resposta é “semanas”, a decisão deve ser rápida, tomada perto de quem executa, e revista com dado real.

Se a resposta é “meses” ou mais, o processo precisa ser mais robusto, não mais rápido. Isso significa alternativas comparadas por escrito, premissas explícitas, riscos nomeados e um registro da decisão que alguém consiga ler daqui a dois anos e entender por que ela foi tomada.

O que muda para quem lidera

Classificar decisões é um trabalho de liderança que não aparece em lugar nenhum. Ninguém agradece pela decisão reversível que foi tomada em uma tarde, nem pela irreversível que ganhou mais três semanas de análise.

Mas é esse trabalho que define se o time anda rápido onde pode e com cuidado onde precisa. Velocidade e rigor não são opostos. São ferramentas para portas diferentes.